Thursday, September 28, 2006

"There is no coming to consciousness without pain" (Carl Jung)

Tenho lá minhas idéias sobre espiritualidade (nome que me deixa desconfortável, pois remete automaticamente a algum tipo de religião - não é o caso), mas hoje tive um insight...

Machuquei meu dedo concertando o meu micro, o que arrancou um pedacinho de pele. A ferida exposta, não pôde ser coberta, pois não havia band-aides em casa. Qualquer sensação que normalmente com pele não se percebe, ficou muitas vezes ampliada... O contato com o ar, com a água, e tocando objetos (sem querer - não sou masoquista...). Mas este aumento de sensibilidade se manifestava principalmente como dor. Tudo era grotesco demais. Duro demais. Áspero demais. Sem nossa pele, nossa casca, o encontro com o mundo exterior se torna quase insuportável.

Me fez pensar sobre o corpo e a consciência (é como gosto de chamar o espírito, alma, centelha divina etc.). Será que é por isso que precisamos de nossos corpos? Será que é por isso que não andamos por aí simplesmente em espírito? Se existíssemos, neste estágio da nossa evolução, sem corpos, será que a sensibilidade de nosso espírito seria grande demais para tolerarmos o contato com o mundo externo? Será que doeria muito? Com dor, não quero dizer necessariamente a nossa dor ocidental - os chineses têm várias palavras diferentes para descrever dor - dor de cabeça não é a MESMA sensação que dor de um estiramento muscular... Mas p/ nós ocidentais, tudo é dor - talvez desconforto fosse uma melhor palavra - há vários tipos de desconforto.

Será que precisamos desta casca tosca e limitada para podermos suportar desconforto de existir? E mesmo com ela, dá pra dizer que suportamos muito bem?

Por outro lado, será que sentindo mais, não estaríamos percebendo mais a nossa volta? Entendendo mais? Interagindo melhor? Existindo melhor?

E eis o paradoxo: Nossa casca nos impede de sentir tanta dor, mas também de existir melhor?

3 comments:

Anonymous said...

Bom, eu gosto de pensar que as limitações do nosso corpo são algumas das coisas que nos define como individuos. Acho que o universo de cada um é a soma das limitadas informações que podemos perceber com a forma que interpretamos e lembramos essas informações (que nem sempre são como nós as percebemos originalmente). Existe muito mais no universo do que podemos perceber mas se nós não podemos perceber essas coisas então elas não vão nos afetar e logo não vão fazer parte do nosso universo pessoal, e se estão nos afetando, bom, então estamos percebendo mesmo que não estejamos conscientes disso... :S
Eu gosto de pensar na expansão da nossa sensibilidade como forma de expandir nosso universo também ou simplesmente criar algo novo com informações velhas mudando a maneira como nós processamos e lembramos essas coisas. Cria uma dinamica nova pra vida e tb da uma coisa pra gente fazer quando o trânsito tá bravo.

Só mais uma coisa, eu sei que os insights aparecem das maneiras mais inusitadas mas vc é um pensador nato. Quando eu machuco meu dedo mexendo nas placas do meu micro a melhor coisa que eu consigo pensar não pode ser escrita sem usar diversos simbolos do Wingdings... :P.

Muito legal o blog, é bom pra gente manter contato e trocar umas ideias. Abração pra vc e pra Sandra!

Anonymous said...

Quando falamos em dor, geralmente nos remete a uma questão fisica, visivél, pictorica muitas vezes. Mais e quando a dor é aquela que não podemos exprimir... A dor de cotovelo, a dor de perder um amigo, ou mesmo perder algum animal de estimação. Eu fico pensando se poderiamos mesmo morrer de amor ou enloquecer por algo que fisicamente não machucou o nosso corpo fisico. Muitas vezes a dor não pode ser tan real ou tangivél quando um corte nos dedos, mais nos machucará com a mesma força

Anonymous said...

Great insight! Remeteu-me ao livro "Consciência sem Fronteiras", do Ken Wilber, um dos fundadores da psicologia transpessoal. Lá ele destaca que o cérebro é ao mesmo tempo o instrumento com que a consciência recolhe os estímulos e experiências do mundo exterior e uma válvula que impede que a onisciência nos esmague...